02/02/2010
OS BOMBEIROS PRECISAM DE SUA AJUDA
CARTA ABERTA DOS BOMEBEIROS DE MATO GROSSO DO SUL À POPULAÇÃO
Caro amigo (a), estamos vindo por intermédio desta, solicitar a Vossa Excelência para que possa ajudar os Bombeiros que trabalham na rua, ou seja, SERVIÇO OPERACIONAL do estado do MS em relação à jornada EXCESSIVA E DESUMANA de trabalho que estamos sendo obrigados a cumprir.
Ocorre que sempre trabalhamos na jornada de 24 horas por 48 horas de descanso, porém é sabido que, em decorrência da rotina operacional, esse horário é extrapolado nas suas 24 horas e reduzido em suas 48 horas, tendo em vista que o horário obrigatório de chegada no Grupamento é o de 7h30min e o de saída é o de 9h do dia seguinte. Somente aí se tem um aumento de 1 hora e meia da jornada de trabalho, para a realização obrigatória de atividades de Educação Física ou Instrução. Ainda há o fato de algumas vezes os horários de saída do serviço não serem feitos no devido horário, isso, pois há determinadas ocorrências que acontecem próximo a esses horários de saída.
Em relação à carga horária temos ainda que salientar a ocorrência de formaturas e escalas extras para os militares em seus dias de folga, não sendo respeitado o seu devido e merecido descanso. Não há nada que ampare a medida de compensação por esses dias a mais, ou seja, nos dias que o militar deveria estar descansando e recuperando suas energias para o próximo serviço, ele é obrigado a interromper sua folga e cumprir tais determinações, não sendo compensado por isso e tendo um grande desgaste físico, emocional e psicológico. Uma prova contundente disto é o grande número de bombeiros militares afastados por tais problemas, além de outros mais graves, como alcoolismo e uso de entorpecentes e isso vem aumentando gradativamente junto com o número de ocorrências, trazendo uma maior sobrecarga de trabalho para os que ainda têm a saúde teoricamente boa para o trabalho e que estão na rua auxiliando a população. O número de bombeiros que acabam se divorciando também é muito grande, pois muitas esposas não suportam essa ausência do marido.
Levando-se em conta o horário de chegada e saída do serviço operacional, tem-se trabalhadas 245 horas por mês. Somando-se a isso os dias que têm Educação Física Militar Obrigatória em 1 mês, temos em média mais 10 horas. Mais as ocorrências que podem fazer com que você extrapole seus horários, chegamos facilmente a uma média de 260 horas trabalhadas em 1 mês, sem contar com a carga horária de formaturas, escalas extras e outras missões que somos OBRIGADOS a cumprir. A Constituição Federal diz que o trabalhador trabalha em média 170 horas mensais. O expediente administrativo do Corpo de Bombeiros entra 7h30min da manhã e sai 13h30min, ou seja, 6 horas por dia de segunda a sexta, folgando normalmente sábados, domingos, feriados e pontos facultativos, tendo em média 120 horas mensais.
Ou seja, existe dentro da corporação uma distorção de carga horária, ainda mais numa corporação onde não existe um quadro administrativo que seja respeitado e funcione de fato, pois não é justo um Terceiro Sargento que trabalha na rua com carga horária excessiva, com a mesma formação e mesmo tempo de serviço de um outro Terceiro Sargento que trabalha na parte administrativa, numa carga horária de trabalho reduzida e ainda gozando de sábados, domingos e feriados. Isso sem contar vários soldados e cabos novos que deveriam e poderiam estar auxiliando diretamente a população na rua, porém devido à excessiva carga horária, os mesmos preferem trabalhar no administrativo. Há uma discrepância de horários entre o serviço Operacional e Administrativo, fazendo com que ótimos profissionais procurem a área administrativa por conta dessa carga horária, quando na verdade gostariam mesmo é de continuar auxiliando diretamente a população no serviço operacional. Além disso, esse trabalho administrativo poderia ser realizado facilmente por funcionários civis, estagiários, deficientes físicos e até mesmo a garotada do Instituto Mirim, ficando eles sobre a supervisão de um oficial, esse sim, responsável pelo serviço administrativo.
Para atender bem a população é necessário que o profissional bombeiro seja valorizado e esteja bem em relação à saúde física e mental. Por exemplo, imagine você e sua família voltando de uma festa durante a noite e infelizmente acaba se envolvendo num acidente e são atendidos por bombeiros cansados físico ou mentalmente? Será que seria um bom atendimento? Poderia ser melhor, não?
A busca por melhores condições de trabalho é essencial. É sabido que a tropa operacional do bombeiro já vem cogitando e pedindo a redução da carga horária dos plantões operacionais e isso com certeza ajudaria na melhora dos serviços prestados para a população e principalmente a saúde dos bombeiros que já têm muitas marcas de desgaste físico e mental, ocorrendo agravamento de doenças, de maior suscetibilidade a agentes nocivos, de cansaço, de sofrimento mental e de envelhecimento precoce. É o que acontece com quem trabalha em plantões de todos os tipos. Agora imaginem num plantão apertado como o nosso.
Trabalhar em plantões tem repercussões na vida familiar e social de cada um. Nós todos pertencemos, por escolha ou por necessidade, a vários grupos sociais: família, amigos, política, trabalho, recreações, etc. Isto pode repercutir negativamente sobre o relacionamento do casal, quanto à educação, cuidado e atendimento aos filhos, a dificuldade em manter as relações interpessoais habituais e os contatos sociais. Deveríamos ter o apoio psicológico do setor de psicologia do Bombeiro, mas sinceramente acho que muitos nem sabem que existe.
O serviço de 24 horas é um trabalho diferenciado de qualquer um. Tem dias que o plantão vai ser calmo, mas tem dias que o plantão vai ser muito tumultuado, desgastando ainda mais o bombeiro. Porém, mesmo nos plantões tranqüilos, o fato de ficarmos aquartelados mais de 24 horas nos traz a idéia de que estamos presos àquela situação e muitas vezes aquilo vai se tornando uma tortura psicológica, pois conforme o dia vai passando e a noite vai chegando, a tensão também vai aumentando e a atenção tem que ser redobrada principalmente no período noturno, pois pode ocasionar acidentes de trabalho, ficando o bombeiro também suscetível a se tornar uma vítima ou ainda não prestar da maneira eficaz o seu serviço a sociedade.
É sabido que durante a noite a atenção tem que ser redobrada e não é novidade para ninguém que dependendo do dia o cansaço no período noturno é imenso e há o risco de ocorrer acidentes, tendo em vista que o motorista bombeiro a qualquer momento pode dormir no volante, o Comandante por ter seus reflexos reduzidos possa dar uma ordem equivocada ou até mesmo os membros de execução fazer algo que não faria caso estivesse em alerta e descansados.
Trabalhamos com funções acumuladas. Militares reduzidos faz com que Condutores Operadores (motoristas) sejam também auxiliares e membros essenciais de uma ocorrência. Comandantes de Guarnições e Comandantes de Viaturas tenham que por a mão na massa e serem membros de execução, assim como cabos e soldados. Muitas vezes há o acúmulo de várias funções, como condutor, comandantes de guarnições, comandantes de viaturas e auxiliar ao mesmo tempo. Dependendo do Quartel, existem até soldados ou cabos tendo funções de Comandantes de Guarnições. Além de exercer a função de Bombeiros, tem-se que exercer a função de Guardas, Operadores de Rádio, Faxineiros e Cozinheiros, desgastando ainda mais o profissional Bombeiro Militar. Fora as funções de serviços gerais, como pintores, marceneiros, jardineiros, enfim, todas as outras funções que nada a ver tem com a atividade fim do Corpo de Bombeiros. Sim, pois ao invés de contratarem empresas para realizar tais serviços, utilizam do militarismo muitas vezes para obrigar o militar a realizar tal função.
Temos alguns exemplos próximos a nós, onde profissionais que lidam com a Saúde e Segurança Pública já não efetuam mais jornadas de 24 horas, como por exemplo, enfermeiros e técnicos de enfermagem que têm seus plantões de 12 horas, assim como os atendentes e socorristas das unidades Avançadas e Básicas do SAMU, que efetuam o mesmo trabalho do Resgate do Bombeiro.
Temos profissionais da segurança pública próximos a nós, como CIPTRAN que já não realizam mais plantões de 24 horas. Dificilmente algum Batalhão da Nobre Policia Militar realiza esses plantões e quando o fazem, têm folga de 72 horas e não 48. Agentes penitenciários tanto estaduais como federais e Policiais Rodoviários Federais também têm suas folgas em 72 horas. Policiais Civis têm seus plantões de 12 horas. Ou seja, verifica-se que em muitos lugares os plantões são de 12 horas e quando são de 24 horas, a folga é de no mínimo 72 horas. E nós Bombeiros? Sempre foi e continuará sendo a tortura de mais de 24 horas por menos de 48 de descanso se não formos socorridos. E os serviços gerais? Duvido que nessas outras instituições, seus membros sejam obrigados a fazer FAXINA PESADA ou SERVIÇOS GERAIS nos seus órgãos, pois é sabido que têm os funcionários específicos para isso.
Foi realizado um estudo para a redução de jornada de trabalho dos profissionais Bombeiros e Policiais que trabalham no CIOPS (193 e 190). Jornada que já chegou a ser de 24 horas, passando depois de vários estudos para 12 horas, até chegar atualmente ao período de 6 horas diárias, devido a suas funções.
Outros estados da Federação como Brasília, Rio de Janeiro, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul têm jornada de serviço de 24 horas por 72 horas de descanso, que é o ideal. Nossos comandantes dizem que não existe pessoal suficiente para fazer uma melhoria de escala. MENTIRA. Sabe-se que o serviço administrativo está lotado de militares e sempre quando é para ativar uma viatura ou então para ganhar diárias no carnaval, por exemplo, aparece um monte de militares para trabalhar no serviço operacional. Claro que o ideal é o ingresso de mais militares, porém o que existe é suficiente para melhorar a escala de serviço.
Teve-se em Campo Grande um aumento imenso do número de ocorrências, fazendo com que o desgaste dos Bombeiros Militares que atuam na rua seja evidente. Como pode um bombeiro fazer um salvamento em altura, um resgate ou combater um incêndio estando cansado fisicamente e mentalmente? Tais atividades que continuamos a exercer com êxito até o momento em que sofremos com alguma disfunção orgânica, ou seja, não é a toa que existem vários bombeiros afastados por problemas de saúde. Os bombeiros que trabalham na rua estão envelhecendo e enfraquecendo além do normal devido à carga horária excessiva.
Solicitamos a Vossa Excelência a intervenção o mais urgente possível para a redução da carga horária dos plantões realizados pelo efetivo operacional, tendo em vista que nossos pedidos internos já se esgotaram e não foram atendidos pelos nossos oficiais responsáveis, fato este que nos leva a fazer uso do anonimato, por estarmos sujeitos a retaliações. É sabido que alguns grupamentos tentaram no passado alguma maneira para poder melhorar essa jornada de trabalho, porém sempre tem algum CORONEL, que não precisa por a mão na massa, que fica dentro do seu gabinete com ar condicionado, não correndo o risco da rua e ainda ganhando um dos melhores salários do Brasil, que impede qualquer tipo de melhoria para os bombeiros que trabalham na rua. Não estamos pedindo aumento de salário, adicional de insalubridade, adicional de periculosidade, adicional noturno ou horas extras, direitos estes já conquistados por outros profissionais, estamos pedindo apenas REDUÇÃO DA CARGA HORÁRIA de trabalho de quem trabalha na rua para uma carga horária justa e humana.
Certo de sua atuação como representante da sociedade e que tem grande admiração dos trabalhos prestados pelos bombeiros, aguardamos ansiosamente por uma ajuda de Vossa Excelência para que exponha diante da sociedade e das autoridades competentes este grave problema enfrentado pelos bombeiros. Pedimos para lutar por nós e temos fé em Deus de que com a sua ajuda iremos conseguir uma justa e digna jornada de trabalho.
MAIS DO QUE JUSTO!